Awo Orixa, Ifá Wuraola

Todo grande alicerce precisa ser escavado fundo na terra. A minha jornada espiritual não foi um salto repentino, mas uma caminhada contínua de muito suor, estudo e reverência ao sagrado. Os meus primeiros passos firmes se deram no colo acolhedor da Umbanda. No ano de 2012, encontrei na Casa da Avó Maria Rosa o solo onde a minha mediunidade começou a ser moldada para o trabalho de caridade. Ali, no chão de terreiro, aprendi o valor da humildade, o ritmo dos atabaques e a força invisível que ampara aqueles que buscam ajuda.
Com o encerramento das atividades daquela casa, o destino me levou a um novo terreiro, na região da Vila Maria, onde permaneci por seis anos. Foram anos de dedicação ininterrupta, vivenciando a Umbanda na sua forma mais pura de doação, batendo cabeça, firmando ponto e atendendo a comunidade.
No entanto, dentro de mim, pulsava uma inquietação que não me permitia estagnar. A Umbanda era a minha escola primária, a base do meu amor pelo sagrado, mas eu sentia uma necessidade vital de entender a fundo a mecânica do invisível. Eu queria ir além do transe mediúnico; queria entender o porquê de cada folha, o fundamento por trás de cada cântico, a mecânica da energia e a origem ancestral daquelas forças que nos guiavam.
Comecei uma busca incessante por conhecimento litúrgico e prático. Fiz diversos cursos voltados à Umbanda, mas os meus olhos se voltaram inevitavelmente para o continente africano, para a raiz de tudo. Foi então que os meus caminhos se abriram para o Oduduwa Templo dos Orixás, marcando um verdadeiro divisor de águas na minha trajetória.
Entrar no Culto Tradicional Iorubá exigiu de mim um profundo esvaziamento. Tive que me despir de dogmas ocidentais e de muitos sincretismos para compreender a grandeza e a complexidade do Axé (a força vital e dinâmica do universo). O Templo Oduduwa não me deu apenas respostas prontas; entregou-me uma nova forma de enxergar a relação entre a natureza, os homens e os deuses.
O ápice dessa busca culminou nas iniciações sagradas.
A Iniciação em Ifá: Passar pelos ritos de Ifá trouxe-me o entendimento sobre o Odù (o destino de cada ser). A sabedoria de Orunmilá forneceu-me uma bússola inquebrável, ensinando-me que a espiritualidade não é apenas sobre incorporação, mas sobre caráter, alinhamento de caminhos e previsibilidade divina. Ifá abriu a minha visão analítica e espiritual.
A Iniciação em Orixá: O renascimento nas águas e preceitos do Orixá consolidou a minha coroa. Essa iniciação conectou o meu Orí (cabeça, consciência e destino) diretamente com as forças matrizes da criação. Aprender os fundamentos ancestrais, os cânticos originais e os ritos de sacralização trouxe uma densidade e um peso à minha jornada que eu jamais havia experimentado.
