Um Rei não se senta num trono que não esteja pronto para suportar o peso da sua coroa

Na espiritualidade, uma verdade incontestável rege a chegada dos grandes Maiorais: um Rei não se senta num trono que não esteja pronto para suportar o peso da sua coroa. A história de como o Exu Rei do Inferno se revelou e tomou a frente da Tàlabí Casa de Orixá é a prova de que as entidades de alta hierarquia moldam os seus cavalos no silêncio, agindo sob véus até que a estrutura física, mental e espiritual esteja forjada.
Durante os anos de provação e desenvolvimento, essa força imponente esteve sempre presente, mas oculta sob outras roupagens. No início da minha caminhada, a energia que me guiava precisava de ser vulcânica e desbravadora, e por isso ele permitiu que a força de Xoroquê tomasse a frente. Mais tarde, durante os seis anos em que servi num terreiro na Vila Maria, eu precisava de um escudo impenetrável contra a inveja e as armadilhas que me cercavam. Naquele período, ele cobriu-me com a capa de Tranca Ruas das Almas.
Ele sabia que o ambiente onde eu estava não comportaria a vibração de um Rei, e sabia, acima de tudo, que eu — o médium — ainda precisava de estudar, de passar pelas iniciações no Oduduwa e de sofrer a ruptura dolorosa para me tornar um verdadeiro Bàbá. A sua verdadeira identidade permaneceu em segredo enquanto eu construía os meus alicerces.
Após o período de reclusão e ataques espirituais, a Tàlabí nasceu. Primeiro num pequeno espaço no Ipiranga, onde a força bélica de Xoroquê voltou a abrir os caminhos, e logo em seguida na sua grande sede definitiva, na Vila Maria. Nós reformámos o salão, pintámos as paredes, firmámos a tronqueira e consagramos o solo. A Tàlabí Casa de Orixá e Tranca Ruas estava finalmente de portas abertas, pulsando com vida e axé. O castelo estava erguido.
Foi num dia de trabalho intenso, numa gira de macumba forte, que a história da casa mudou para sempre. O tambor batia, a energia estava elevada e eu preparei-me para a incorporação, esperando a descida vibrante de Xoroquê. No entanto, o que cruzou a linha do invisível para o físico não foi o senhor da forja.
A atmosfera do terreiro transformou-se instantaneamente. O ar tornou-se denso, pesado, porém carregado de uma autoridade absoluta e segura. A postura do meu corpo alterou-se por completo, tornando-se ereta, imponente e inabalável. O salão inteiro mergulhou num silêncio reverente. O Exu que ali estava não usava capas de proteção nem disfarces. Com passos lentos e firmes, ele caminhou pelo terreiro. Os seus olhos, profundos e analíticos, vasculharam cada centímetro da Tàlabí. Ele foi até à tronqueira, observou a firmeza da casa, mediu a energia dos filhos presentes e avaliou a estrutura que havíamos construído com tanto sacrifício.


Após inspecionar o seu reino, ele posicionou-se no centro do terreiro. A sua voz, grave e carregada de uma sabedoria ancestral, ecoou para todos ouvirem. Ali, ele desfez o mistério de uma década.
Explicou abertamente que o nome “Tranca Ruas”, que me acompanhou durante tanto tempo e que até deu nome à nossa casa, fora apenas uma roupagem necessária. Um disfarce cirúrgico, pois eu não estava pronto para que ele assumisse, e o mundo ao meu redor ruiria sob a sua força se ele tivesse chegado antes do tempo. Mas agora, o sacerdote estava coroado de conhecimento e o terreiro estava assentado na verdade.
Olhando para a comunidade e firmando o seu poder sobre aquele solo sagrado, ele decretou:
“Agora, quem manda aqui sou eu.”
Naquele momento, o Exu Rei do Inferno assumiu o seu lugar de direito como Guia Chefe da Tàlabí. A partir daquele dia, a dinâmica da casa elevou-se a um novo patamar. É ele quem dita as regras, quem realiza os trabalhos mais complexos de quebra de demanda, quem conduz as iniciações e quem testa a resiliência e o caráter de cada filho que entra na corrente. A Tàlabí deixou de ser apenas um terreiro para se tornar a fortaleza de um Rei, onde a sua força absoluta e o seu senso de justiça inabalável governam e protegem todos os que se colocam sob a sua coroa.