Aleksander Carrazza

Awo Talabi, Oláifá

O Despertar para a Raiz Sagrada: A Jornada da Umbanda ao Culto Tradicional Iorubá

Todo grande alicerce precisa ser escavado fundo na terra. A minha jornada espiritual não foi um salto repentino, mas uma caminhada contínua de muito suor, estudo e reverência ao sagrado. Os meus primeiros passos firmes se deram no colo acolhedor da Umbanda. No ano de 2012, encontrei na Casa da Avó Maria Rosa o solo onde a minha mediunidade começou a ser moldada para o trabalho de caridade. Ali, no chão de terreiro, aprendi o valor da humildade, o ritmo dos atabaques e a força invisível que ampara aqueles que buscam ajuda.

Com o encerramento das atividades daquela casa, o destino me levou a um novo terreiro, na região da Vila Maria, onde permaneci por seis anos. Foram anos de dedicação ininterrupta, vivenciando a Umbanda na sua forma mais pura de doação, batendo cabeça, firmando ponto e atendendo a comunidade.

O Chamado do Conhecimento

No entanto, dentro de mim, pulsava uma inquietação que não me permitia estagnar. A Umbanda era a minha escola primária, a base do meu amor pelo sagrado, mas eu sentia uma necessidade vital de entender a fundo a mecânica do invisível. Eu queria ir além do transe mediúnico; queria entender o porquê de cada folha, o fundamento por trás de cada cântico, a mecânica da energia e a origem ancestral daquelas forças que nos guiavam.

Comecei uma busca incessante por conhecimento litúrgico e prático. Fiz diversos cursos voltados à Umbanda, mas os meus olhos se voltaram inevitavelmente para o continente africano, para a raiz de tudo. Foi então que os meus caminhos se abriram para o Oduduwa Templo dos Orixás, marcando um verdadeiro divisor de águas na minha trajetória.

O Encontro com Ifá e as Iniciações em Orixá

Entrar no Culto Tradicional Iorubá exigiu de mim um profundo esvaziamento. Tive que me despir de dogmas ocidentais e de muitos sincretismos para compreender a grandeza e a complexidade do Axé (a força vital e dinâmica do universo). O Templo Oduduwa não me deu apenas respostas prontas; entregou-me uma nova forma de enxergar a relação entre a natureza, os homens e os deuses.

O ápice dessa busca culminou nas iniciações sagradas.

  • A Iniciação em Ifá: Passar pelos ritos de Ifá trouxe-me o entendimento sobre o Odù (o destino de cada ser). A sabedoria de Orunmilá forneceu-me uma bússola inquebrável, ensinando-me que a espiritualidade não é apenas sobre incorporação, mas sobre caráter, alinhamento de caminhos e previsibilidade divina. Ifá abriu a minha visão analítica e espiritual.

  • A Iniciação em Orixá: O renascimento nas águas e preceitos do Orixá consolidou a minha coroa. Essa iniciação conectou o meu Orí (cabeça, consciência e destino) diretamente com as forças matrizes da criação. Aprender os fundamentos ancestrais, os cânticos originais e os ritos de sacralização trouxe uma densidade e um peso à minha jornada que eu jamais havia experimentado.

A Consagração do Sacerdote (Bàbá Alê)

Essas iniciações não foram apenas cerimônias; foram a forja de um novo nível de sacerdócio. O entendimento litúrgico sobre os ebós (oferendas de limpeza, restituição e transmutação), a manipulação correta das ervas, os rituais de assentamento e o direcionamento preciso da energia transformaram o aprendiz no Bàbá Alê.

Com a bagagem amorosa e aguerrida da Umbanda unida aos fundamentos milenares do Culto Tradicional Iorubá, senti-me verdadeiramente completo e ancorado. Foi nesse momento que as próprias forças espirituais que me acompanham me deram a outorga definitiva. Com essa autorização ancestral e o conhecimento litúrgico enraizado, passei a transcender as paredes do terreiro onde eu atuava.

Comecei a realizar atendimentos fora daquela casa, visitando lares, aplicando rituais africanos precisos e ajudando a reorganizar a vida das pessoas com eficácia. A minha base já não era apenas a intuição mediúnica, mas a ciência milenar da espiritualidade fundamentada na Tradição. Eu estava pronto para o que o destino ainda iria exigir de mim.